Mesa para um, por favor.

Eu nunca gostei muito de comer fora sozinha. Me sentia meio desconfortável, como se estivesse faltando algo. Mas na França esse trauma se desfez.

Boa parte das pessoas em Paris almoçam ou até jantam sozinhas em restaurates. Seja porque não querem cozinhar, porque apreciam boa comida ou porque deu vontade de ir no Thailandês mais próximo sem ter que convencer todos os amigos, o fato é que os restaurantes estão repletos de pessoas comendo sozinhas. Em certas mesinhas apertadas e voltadas para rua a companhia fica até inviável.

Eu virei adepta. Afinal de contas, eu morava sozinha. Não era todo dia que tinha um amigo disponível para ir comer comigo. E não era todo dia que eu estava a fim de me aventurar na « cozinha compartilhada » da Cité universitaire. E comer fora sozinha até que é divertido. Você aprecia a paisagem, a comida, especula sobre a vida das pessoas que estão no restaurante, ouve a conversa alheia ou lê um bom livro. Tudo isso sem o menor problema. De vez em quando você até socializa com a pessoa da mesa do lado, ou o garçom e bate um papinho animado.

Agora de volta ao Brasil eu pareço criar uma pequena comoção em alguns restaurantes quando vou comer sozinha. Tem certos garçons que não se conformam:

– A Sra. está esperando alguém?

– Não, não estou.

– Mesa só para um então?

– Sim.

– Mas não vai chegar mais ninguém?

Não caramba! Eu estou muito bem acompanha do novo romance da Barbery. Mas isso não apaga a cara de piedade dos garçons. Alguns, se o restaurante não está muito cheio, até tentam puxar conversa. Oras, nada contra fazer amizade com garçons, mas vir conversar comigo porque está com dó? As pessoas ao redor também parecem não ficar confortáveis. Tem uns que ficam olhando descaradamente, com um ar de desespero, inexplicável.

Esse celeuma que uma pessoa sozinha parece causar parece bem pior em alguns tipos de restaurante tido como “família”. Tenta ir sozinha num rodízio ou restaurantes do tipo.  Você fica se sentindo um ser estranho, incomodando todo o restaurante.  Chegou ao absurdo de uma recepcionista ir conferir com o gerente (!) se podia me sentar numa mesa sozinha.

Mas hoje encontrei um lugar de paz. Uma adorável creperia na Asa sul, onde eu comi tranquilamente sozinha. Sem ninguém me olhar estranho. Quando cheguei o garçom nem perguntou se eu estava aguardando mais alguém e foi logo me sentando numa mesa perto da janela. Havia pessoas com a família, amigas conversando, gente lendo, trabalhando no computador. Juntas, sozinhas, com crianças correndo em volta da mesa. O garçom puxou conversa porque era simpático, sem a menor cara de dó, mesmo porque também se intrometeu na conversa que a mãe e a filha tinham na mesa do lado.

Eu comi um crepe de nutella acompanhado por um expresso, enquanto lia meu livro. Fiquei lá uma boa hora depois de ter terminado a refeição, ninguém veio me trazendo a conta para eu ir embora. E quando pedi a conta e ela veio rápida e eficiente, eu fiquei até triste de ir embora desse pequeno tesouro em Brasília.

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