Ma madame

Três vezes por semana a moça da limpeza entra aqui no quarto. Moça eu digo para fazer graça, porque se trata de uma senhora já saindo da casa dos 50 e limpeza, eu digo por falta de outro termo porque o conceito francês de limpeza é um tanto quanto distorcido.

Mas a questão é que três vezes na semana a distinta « madame » entra aqui para tirar o lixo e numa dessas três visitas passa também o aspirador, com uma pressa que lhe é peculiar. Diz o regulamento que ela vem com essa frequência para ver se estamos todos bem e saudáveis e se ninguém está quase morrendo no quarto, sem amigos, sem família. Eu, que bem conheço o diretor dessa Fundação, digo que ela entra tanto assim no quarto alheio para ver se a gente não quebrou nem destruiu nada, se não tem 10 pessoas morando com a gente de favor ou ainda para conferir se mantemos os mínimos (bem mínimos) padrões de higiene francesa.

Quando cheguei aqui eu achava tão evento bem incômodo. Atrapalhava o meu estudo, o meu sono e algumas vezes ela resolvia passar aspirador no quarto bem quando eu estava falando no telefone. Fora a invasão de privacidade que é a tal senhora ter a chave do meu quarto e pode entrar nele a hora que quiser. Mas com o passar do tempo, fui me acostumando com a idéia da madame vir me dar uma « mãozinha » de vez enquando.

Eu achava graça no jeito estabanado e na pressa dela. Ela, do meu francês precário e do fato de estar sempre de pijama no quarto, não importa se ela passava às 9h00 ou às 11h00 da manhã. Do « bonjour » habitual passamos a ter conversas mais elaboradas. Ela me perguntava se eu tinha muito trabalho da escola, eu respondia e perguntava se ela ia viajar no feriado. Me pediu um fervedor de àgua quebrado que eu ia jogar fora, eu dei, e perguntei se ela não queria também uma panela que estava bem velhinha. Perguntou quem era quem nas fotos da minha parede um dia enquanto passava o aspirador lentamente. Me mostrou os dois filhos dela.

Um pouco antes de eu voltar no Natal para o Brasil ela foi embora. Sumiu, sem muita explicação. Quem vinha agora era uma moça novinha quem nem olhava na minha cara para dizer « bonjour » e achava o aspirador muito pesado para se carregar. Fazia caretas e mais caretas quando « limpava » o quarto. Eu até saia mais cedo nos dias que ela vinha, só para não termos que nos encontrar.

Vocês não imaginam qual foi minha alegria quando voltei de viagem e dei de cara com a minha madame numa quarta feira, vindo tirar o lixo. Ela me contou que tinha tirado férias logo antes do Natal para poder emendar, foi visitar a família. Eu contei que tinha ido visitar a minha também. Ela me pergunto do namorado, se ele estava bem, quando ele vinha me visitar. Eu lhe ofereci um sonho de valsa.  Ela agradeceu e disse que me via na sexta. Sorri, até que era bem legal a visita da madame três vezes por semana.

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