Eu não vou mesmo falar de flores…

Eu ia escrever um post sobre a primavera e sobre a chegada das flores em Paris, mas a pergunta de uma colega de sala da faculdade me fez mudar de tema.

Uma simpatica espanhola, que fez todos os seus estudos universitarios em Paris trombou ontem comigo na biblioteca e me perguntou de onde eu era no Brasil. Ao que prontamente, eu, saudosa da minha patria, respondi com um certo orgulho que vinha de São Paulo. Pronta para dar dicas caso ela estivesse indo para o Brasil de férias porque – mesmo sem nunca ter ido para o Rio de Janeiro – na Europa eu sou um poço de informações sobre o maior pais da América do Sul. Não foi bem o que aconteceu…

Ela, baixando o tom de voz e com uma cara muito apreensiva me perguntou: E como é? Eu, que não entendi muito bem a pergunta, jah estava pronta para discorrer sobre a maravilhosa pizza paulistana e os beneficios dos serviços 24 horas. Ela como se entendesse a minha cara de ponto de interrogação esclareceu: estava pensando em fazer um estagio no Brasil, mas tinha muito medo da violência de São Paulo. Namorava um franco-brasileiro e o namorado e sua respectiva mãe a haviam advertido sobre os perigos de São Paulo e como milhares de pessoas que eles conheciam jah tinham sido roubadas, sequestradas, ameçadas. Quantas vezes isso jah aconteceu com você?

Eu, nascida e criada em São Paulo e portadora de uma memoria um tanto fraca, confesso que me senti um pouco ofendida e dei minha resposta habitual, que brasileiro exagera e que não é tudo isso, que brasileiro gosta de reclamar, mas que São Paulo não é diferente de nenhum outro grande centro e que o risco existe sempre. E disse que nos meus 24 aninhos de vida eu jamais tinha sido vitima da violência urbana.

Tudo verdade, até um certo ponto. Brasileiro exagera mesmo e estah sempre dizendo horrores sobre as mazelas do sertão e sobre a violência no Rio de Janeiro. Brasileiro gosta de reclamar sim, e vive resmugando a respeito de coisas que são iguais ou até piores nos outros paises do mundo, mas que quando no Brasil eles fazem questão de reclamar. Eu jamais sofri violência – fisica – em São Paulo, mas é bem verdade que jah sofri diversas tentativas de assalto e fui furtada mais de uma vez.

Ela, ainda não convencida com a minha explicação, me perguntou: Você tem medo de sair na rua? E minha resposta imediata foi: Não! Ao que ela se convenceu (ou ficou com medo de me ofender) e continuamos conversando sobre temas mais amenos e eu até dei algumas dicas sobre pizza para ela.

Entretanto a pergunta ficou se reperguntando para mim e eu me dei conta, eventualmente, que estava me encaixando no outro grupo de brasileiro que exagera: o dos que adoram pintar um Brasil verde-e-amarelo, do futebol, de praias maravilhosas, do carnaval da Bahia.

A resposta verdadeira para aquela pergunta seria um sonoro :Sim. Eu sinto medo de sair na rua em São Paulo e por mais que eu tente fazer de conta que é normal e que a violência é grande em qualquer centro urbano, não é normal. Não é normal eu ter medo de abrir a janela do vidro do carro, eu não pegar o meu celular ou a minha carteira na rua, eu me assutar cada vez que um pedestre passa mais perto do carro no farol. A assombrosidade com que meus amigos da faculdade me contaram um assalto no metrô outro dia me fez rir, para mim era algo tão corriqueiro. Eu ainda perguntei: Mas o cara soh pediu a carteira dela? Não fez mais nada?

Paris é uma metropole e estah sujeita a esse tipo de violência, mas é uma violência que não é banalizada. Não é normal ser assaltado, as pessoas não andam com medo da violência pela rua. Em Paris se fala no celular no metrô, se anda na rua sozinho de noite e não se tem medo de passear no parque ou de andar de ônibus. Eh preciso estar atento, é verdade, não dah para andar com a bolsa aberta no metrô lotado, ou dar confiança para estranhos que podem querem te dar um golpe, mas nada muito além disso.

Uma das coisas que mais me impressionou quando eu vim morar na França foi o medo que eu tinha de crianças. A violência de São Paulo chegou a tal ponto do absurdo que eu tinha medo das crianças parisienses saindo da escola, pois os considerava assaltantes em potencial.

Ter medo da violência, viver com medo da violência, não é uma coisa normal, ainda que a banalizemos no nosso dia-à-dia. Normal é o medo e a apreensão da minha colega de ir morar num lugar onde se é assaltado por crianças.

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4 commentaires pour Eu não vou mesmo falar de flores…

  1. Nane dit :

    Pri,
    Eu também tinha medo de crianças quando cheguei aqui. Isso é mesmo o fim do poço…
    Belo post!
    bjs

  2. Flá=D dit :

    É, concordo que brasileiro exagera (e gosta!) mas vc tocou em uma questão fundamental: a gente acabou se acostumando a ter medo, a ficar apreensivo, a se privar de algumas coisas. E a gente só se dá conta do estado de sítio que vivívamos quando mudamos os ares.
    Coro com a Nane: ótimo post!
    Beijinho

  3. querida,

    quase ficamos sem palavras…
    coisas difíceis para pensar ,difíceis de aceitar,e como gotaríamos que mudasse ….
    Beijinhos,
    mamãe

  4. Rachel dit :

    Yep!

    eu tenho medo daqui, me leva pra ai ????

    e agora eu comprei um I Phone!!!… hum… vou andar com mais medo ainda….

    =P

    amo vc!!!!

    saudades!!!!

    beijosss

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