Tem horas que faltam palavras…ainda bem que restam uma pessoas sensatas no mundo:
“Pensemos em um caso de escola escrito por um louco moralista: uma pobre menina de 9 anos, um padrasto estuprador, uma gravidez de gêmeos de 15 semanas.
Questão: O aborto é autorizado (em idioma católico diríamos, lícito)?
O arcebispo de Recife não hesitou. É claro, excomunhão imediata, dura lex, sed lex (a lei é dura, mas é a lei).
Essa história me lembra de uma outra história: Jogamos uma mulher pega em flagrante delito de adultério aos pés de Jesus. “Segundo a nossa lei, ela deve morrer.”- diziam os homens religiosos da época. ” Que aquele que jamais pecou que lance a primeira pedra.” – respondeu Jesus. E todos homem foram embora, começando pelos mais velhos. Ainda bem que o arcebispo de Recife não estava por lá, senão: Blang! Imagine o tamanho da pedra que teria acertado a cabeça da mulher.
Poderíamos tentar nos consolar dizendo que o arcebispo de Recife é um caso isolado, um espécie de louco extremista. Mas não, em Roma, o respeitável cardeal Re, próximo do papa, deu sem sombra de dúvida seu apoio à seu colega brasileiro. Blang! e lá vai a segunda pedra em direção a menina e a sua mãe.
A condenação recai sobre a criança violentada e ignora o padrasto criminoso. Aparentemente, ele é contra o aborto – que belo exemplo de senso moral!
Como uma tamanha dureza de coração é possível? Algo me diz que se o arcebispo fosse mulher…Não, eu dou crédito a maior parte dos homens de serem capazes de terem essa humanidade, essa compaixão das quais o arcebispo e seu confradre romano parecem completamente desprovidos.
A menininha corre risco de vida? Que importa! Esses homens estão prontos para ordenar um sacrificio humano para defender sua lei. Eles ousam fingir que a vida por vir de um feto humano (ou mesmo dois) vale mais do que a vida, trágica e terrível, dessa menina. Os fetos são vidas inocentes, argumentam os hipócritas. Como se a vida dessa menininha não fosse! A vida da menina é uma vida humana, tragicamente. Ela viu o mal, e foi vítima desse mal. Onde está Deus em tudo isso?
Onde está Deus? – perguntava um deportado diante de uma criança enforcada por algozes nazistas. Ele estah lá, respondeu um crente (judeu) apontando a criança.
Sim, se Deus está em algum lugar, Ele está com aquela pobre criança, Ele está do seu lado.
Logo, deve-se concluir que eu sou pró-aborto? Vamos falar sério, não se é pró-aborto, da mesma forma que não se é pró-guerra. Mas, às vezes, é necessário fazer a guerra. Nunca deliberadamente e sem propósito. Sempre é porque tudo o que deveria ter sido feito para evitá-la, não foi feito ou falhou, e existem responsabilidades pessoais e coletivas. Da mesma forma, no que diz respeito ao aborto, nada se resolve sem consciência, despropositadamente. Mas quando tudo o que deveria ter sido feito para que isso fosse evitado não foi feito, ou falhou. E sem dúvida existem responsabilidades em jogo, de mulheres…e de homens.
Além disso, da mesma forma que existem as “leis da guerra”, existem, segundo diferentes países, leis para acompanhar tragédias invididuais e a desgraça social.
Aos homens religiosos, tão certos do seu bom “direito divino”, eu lembro uma outra história do Evangelho: Entre Jerusalém e Jericó, bandidos assaltam um viajante e o deixam como morto na estrada. Passam por ele um sacerdote, depois um religioso, e os dois se desviam por medo da impureza. Passa um estrangeiro, um “crente de segunda classe”, um Samaritano. Ele pára, cuida do homem machucado, o deixa em uma hospedaria, paga pelos cuidados que ainda serão feitos e promete que voltará para saber como vai o homem. Quem se mostrou como o próximo do homem machucado? – peguntou Jesus. Quem lhe mostrou misericórdia? Naquela época, os homens religiosos que ouviram essa história não gostaram muito. Não tenho certeza se certos homens religiosos de hoje gostariam mais…”
Christine Pedotti, membra fundadora do “Comité de la jupe”, artigo publicano no jornal Libération.