papayaSe eu parar para pensar, é verdade que eu nunca tinha visto um papaya em Paris. Mas até ai, papaya não é minha fruta favorita e eu estava rodeada de moranguinhos, framboesas e cerejas.

Porém um dia a vontade chegou. Do nada me deu vontade de comer um café da manhã daqueles de novela, ou igual aqueles que rolam quando eu vou visitar a (ex) casa da melhor amiga ou ainda quando vem visita na minha casa brasileira: pão de queijo, café, suco de laranja feito na hora, pão fresquinho, geléia, manteiga, queijo mussarela, queijo prato, queijo branco, presunto, chocolate quente, rosca doce e é claro mamão papaya.
A vontade em si passou, mas ficou na minha cabeça o tal do mamão papaya. Eu pensei, ora, a proxima vez que eu for no mercado eu compro um papaya é saudavel, é bonitinho e é gostoso. Isso jah faz mais de 20 dias.

Sim, eu fui no mercado um punhado de vezes depois disso o problema é que não achava o dito cujo. Até o presente dia.

Encontrei uma pequena pilha de papayas vindos diretamente do Brasil, logo ao lado do maracuja da Tanzania e em cima da batata doce da Guatemala, na seção de frutas exoticas do mercado. Isso mesmo! Mamão papaya é fruta exotica!

Mas o choque mesmo foi ver que cada um custava a singela quantia de 8 reais.

Tah, eu comprei um para passar a vontade e chega né? Outro soh no Natal.

Quando cheguei no caixa a vendedora passa um tempão olhando para fruta, como se eu tivesse esquecido de pesar. Eu viro com a minha cara desconsolada e digo: Custa 3€, CADA UM. Ela fala: Ah, sim, isso eu sei. Soh nunca tinha visto essa fruta de perto antes. Como chama mesmo?

Eh duro vir de um pais tropical, viu!

Pleno dia dos namorados e foi o meu ultimo dia de aulas na Sciences Po.  Isso não significa que o trabalho acabou, muito longe disso, ainda restam 3 provas orais e um mémoire de 100 paginas para redigir. Mas a minha vida de aluna, por assim, dizer acabou. Chega de aulas, ao menos por um tempo.

Depois de um dia com um exposé matinal logo às 8 horas, uma conferência de dia todo e uma aula no final da tarde eu terminei às 19h15 minha ultima aula na Sciences Po.

As ultimas palavras que a professora de direitos humanos nos disse foram “Je me révolte, donc nous sommes”, uma citação de Camus. Inspirador não?

Mas para ser mais exata a ultima frase dela antes de eu sair da sala de aula foram – com uma caixa de biscoitos na mão: Pega mais um Priscila! Tenho a impressão que a lição que eu vou levar para toda vida vai ser essa: Sempre que tiver a oportunidade pegue mais um biscoito.

Pois é…a crise chegou na minha cozinha. Na verdade foi mais o feriado não anunciado que a crise. Mas o que acontece é que eu não tinha praticamente nada aqui. E como a fome apertou e a necessidade é a mãe da invenção…

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Acho que jah tava mesmo na hora de dar noticias. O leitor n.2 do blog, aka, meu pai (sim, mãe, você continua sendo a n.1) jah estava protestando faz algumas semanas que a historia do macarrão estava meio velhinha.

Primeiro de tudo eu anuncio que de um total de 14 apresentações orais e 11 trabalhos escritos restam apenas 3 de cada por fazer antes do fim do semestre! Pois bem, passada então a fase mais catastrofica do que eu apelidei de “maio sangreto”, chegam noticias fresquinhas do pais da baguete.

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Esses dias fui fazer meu primeiro curso de cozinha na França. No cardapio nada muito complicado: macarrão com legumes e camarão, tudo rapidinho em 30 minutos para ainda termos tempo suficiente para degustar.

O meu grupo, como tinha que ser em Paris, era internacional, duas senhoras espanholas, uma japonesa, eu e três franceses nos metemos a cozinhar com uma chefe que era tão boazinha que soh podia mesmo ser professora de culinaria, porque se colocassem ela para coordenar qualquer restaurante ninguém nunca ia obedece-la. Eu que tinha até estudado meus verbos de cozinha em francês um dia antes, não tive que me preocupar, porque ela explicava tudo bem devagarinho e mostrando.

Resultado final, fizemos um macarrão bem gostoso em meia hora e gastamos mais uma outra hora inteirinha comendo, conversando e rindo. Um perfeito equilibro do tempo na minha opinião.

Eu tinha esquecido que existiam tantos tons de verde…ainda estou decidindo qual é o meu favorito.

Tem expressões que a gente nunca ouviu na vida  ou ouviu errado a vida toda em francês. Mesmo depois de um ano e um punhado de meses por aqui eu ainda me supreendo com as coisas que descubro.

Outro dias desses mesmo foi que vim a entender que a expressão que eu ouvia “S’arreté?” e pensava que era o garçom perguntando se eu jah tinha terminado meu prato, quer efetivamente dizer “ça a été?” algo como “Estava bom? Você gostou?”

Mas continuando no tema expressões gastrônomicas o que eu acho muito bonitinho e o habito de dizer “Bon appetit” antes de qualquer refeição. Quer dizer, pelo menos era o que eu achava, porque aprendi esses dias que quando não se trata de uma refeição nos horarios certos, quer dizer das 12h00 às 14h00 e das 18h00 às 20h30, você vai escutar um “bonne dégustation” do garçom ou do seus amigos. Porque afinal de contas se você estah comendo fora dos horarios estabelecidos você deve ser um “gourmand”, aka, um gordinho.

Depois de uma semana de belos dias de sol e temperatura agradaveis, a chuva e o céu nublado voltaram a tomar seu lugar, o que era de se esperar considerando que ainda estamos no final de março…
Mas os parisienses insistem em trazer a primavera a força e saem para caminhar com suas roupas de primavera, sem casacos, de sandalias, tomam sorvetes e correm no parque e depois ficam todos gripados reclamando da “mudança brusca” do tempo.
Vai entender…

Acordei atrasada. Fui encontrar as meninas da faculdade para fazermos um trabalho e ninguém apareceu. Almocei correndo e fui para aula que o professor claramente tinha esquecido de preparar. Me dei conta que perdi meu passe de transporte escolar. Fui até a biblioteca estudar para a encontrar fechada, pelo segundo dia por problemas técnicos na rede. Descobri que vou ter que pagar para refazerem meu passe, e ele demora 8 dias para chegar. Peguei ônibus lotado para voltar para casa.

Desci dois pontos antes, estava sol, caminhei pelo parque ouvindo meu ipod. Aproveitei que cheguei cedo em casa para falar com o namorado e a família. Fiz uma janta gostosa. Descobri que tinha ganhado uma promoção para fazer um curso de culinária na sexta nas galerias lafayette. Liguei para minha vó para desejar feliz aniversário atrasado e ouvir uma série de elogios. Tive tempo para postar no blog e vou dormir cedo para aula das oito da manhã. Pas mal…

Tem horas que faltam palavras…ainda bem que restam uma pessoas sensatas no mundo:

“Pensemos em um caso de escola escrito por um louco moralista: uma pobre menina de 9 anos, um padrasto estuprador, uma gravidez de gêmeos de 15 semanas.

Questão: O aborto é autorizado (em idioma católico diríamos, lícito)?

O arcebispo de Recife não hesitou. É claro, excomunhão imediata, dura lex, sed lex (a lei é dura, mas é a lei).

Essa história me lembra de uma outra história: Jogamos uma mulher pega em flagrante delito de adultério aos pés de Jesus. “Segundo a nossa lei, ela deve morrer.”- diziam os homens religiosos da época. ” Que aquele que jamais pecou que lance a primeira pedra.” – respondeu Jesus. E todos homem foram embora, começando pelos mais velhos. Ainda bem que o arcebispo de Recife não estava por lá, senão: Blang! Imagine o tamanho da pedra que teria acertado a cabeça da mulher.

Poderíamos tentar nos consolar dizendo que o arcebispo de Recife é um caso isolado, um espécie de louco extremista. Mas não, em Roma, o respeitável cardeal Re, próximo do papa, deu sem sombra de dúvida seu apoio à seu colega brasileiro. Blang! e lá vai a segunda pedra em direção a menina e a sua mãe.

A condenação recai sobre a criança violentada e ignora o padrasto criminoso. Aparentemente, ele é contra o aborto – que belo exemplo de senso moral!

Como uma tamanha dureza de coração é possível? Algo me diz que se o arcebispo fosse mulher…Não, eu dou crédito a maior parte dos homens de serem capazes de terem essa humanidade, essa compaixão das quais o arcebispo e seu confradre romano parecem completamente desprovidos.

A menininha corre risco de vida? Que importa! Esses homens estão prontos para ordenar um sacrificio humano para defender sua lei. Eles ousam fingir que a vida por vir de um feto humano (ou mesmo dois) vale mais do que a vida, trágica e terrível, dessa menina.  Os fetos são vidas inocentes, argumentam os hipócritas. Como se a vida dessa menininha não fosse! A vida da menina é uma vida humana, tragicamente. Ela viu o mal, e foi vítima desse mal. Onde está Deus em tudo isso?

Onde está Deus? – perguntava um deportado diante de uma criança enforcada por algozes nazistas. Ele estah lá, respondeu um crente (judeu) apontando a criança.

Sim, se Deus está em algum lugar, Ele está com aquela pobre criança, Ele está do seu lado.

Logo, deve-se concluir que eu sou pró-aborto? Vamos falar sério, não se é pró-aborto, da mesma forma que não se é pró-guerra. Mas, às vezes, é necessário fazer a guerra. Nunca deliberadamente e sem propósito. Sempre é porque tudo o que deveria ter sido feito para evitá-la, não foi feito ou falhou, e existem responsabilidades pessoais e coletivas. Da mesma forma, no que diz respeito ao aborto, nada se resolve sem consciência, despropositadamente. Mas quando tudo o que deveria ter sido feito para que isso fosse evitado não foi feito, ou falhou. E sem dúvida existem responsabilidades em jogo, de mulheres…e de homens.

Além disso, da mesma forma que existem as “leis da guerra”, existem, segundo diferentes países, leis para acompanhar tragédias invididuais e a desgraça social.

Aos homens religiosos, tão certos do seu bom “direito divino”, eu lembro uma outra história do Evangelho: Entre Jerusalém e Jericó, bandidos assaltam um viajante e o deixam como morto na estrada. Passam por ele um sacerdote, depois um religioso, e os dois se desviam por medo da impureza. Passa um estrangeiro, um “crente de segunda classe”, um Samaritano. Ele pára, cuida do homem machucado, o deixa em uma hospedaria, paga pelos cuidados que ainda serão feitos e promete que voltará para saber como vai o homem. Quem se mostrou como o próximo do homem machucado? – peguntou Jesus. Quem lhe mostrou misericórdia? Naquela época, os homens religiosos que ouviram essa história não gostaram muito. Não tenho certeza se certos homens religiosos de hoje gostariam mais…”

Christine Pedotti, membra fundadora do “Comité de la jupe”, artigo publicano no jornal Libération.

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