A Airfrance cancelou meu vôo e me deu um dia de brinde em São Paulo. Um simpático e-mail me informou que não haveria mais vôo e eu poderia partir um outro dia ou hoje mesmo às 17h35 (o que não era possível já que eu vi o e-mail às 15h00). Depois de umas 4 ligações para o serviço de atendimento ao cliente da Airfrance eu consegui remarcar o vôo para amanhã, no mesmo horário.
Eu não reclamei (muito)e fui comemorar o meu dia extra com família e churrasco. Ainda de brinde, por ser residente da União Européia, vou ganhar uma indenização pelo cancelamento do vôo e reembolso pelas minhas despesas nesse dia que vou ficar em São Paulo. Tinha que ter alguma vantagem morar num quarto de 15m² e ter que atravessar o corredor toda vez que quero ir ao banheiro né?
Para quem queria me ver em Paris, sinto muito, só na sexta.
"Gosto de sentir a minha lígua roçar
A língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar
A criar confusões de prosódias
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões" (Caetano Veloso, Língua)
Compreender e ser compreendido. Depois de seis meses observando os olhos apertados dos franceses tentando entender aquela língua próxima do francês que eu falo ou de tentar explicar coisas absurdamente simples com meu limitado vocabulário, falar a minha língua materna é uma benção.
Eu que nunca fui de falar muito e detestava pedir informação agora nessas minhas férias estou aproveitando para me comunicar. Puxo assunto na fila do banco, converso com velhinhas no ponto do ônibus, dou informação no metrô, feliz da vida porque todos me entendem. Eu pergunto as coisas e nunca ganho de volta aquela cara de ponto de interrogação, os olhinhos apertados tentando compreender e sim um sorriso e – geralmente – a informação certa.
Não importa quão bem você fale qualquer outra língua existe sempre um esforço envolvido no processo de comunição, um esforço que eventualmente cansa e você tem aquela vontade de pedir aos que estão em volta: Vamos parar com essa palhaçada? Já cansei, dá para falar a minha língua?
Espero que no meu retorno todos os franceses já tenham aprendido a falar o português – já é em tempo né pessoal?
Ao contrario de muita gente eu adoro viajar de avião. Gosto de ficar sentada naquelas poltronas apertadas, acho tudo muito divertido, de ter que ir a um banheiro em movimento até aquela comida toda ensacadinha que eles servem. Me delicio vendo as nuvens quando sento na janela ou analisando as pessoas quando estou no corredor. Escuto musica, durmo, vejo filme, leio…faço o que der e aproveito a viagem.
O que me enverva, me assusta e me deixa exausta é a parte “pré” viagem. Eu detesto ter que arrumar mala, escolher o que eu vou levar, encaixar as coisas e torcer para não passar o limite de bagagem. Eu faço listas de coisas para levar, listas do que eu jah coloquei na mala. Eu esqueço as listas e ponho a mesma coisa duas vezes. Eu dobro daqui, aperto de lah sempre tentando fazer mais coisa caber em menos espaço.
E cada dia fica mais complicado: liquidos no saquinho transparente, computador fora da capa, isso pode, aquilo não pode…e eu sempre temo estar cometendo uma infração gravissima levando qualquer coisa. Passo nervoso até as minhas malas receberem aquele selinho e serem despachadas. Fico tensa ao pegar aquela fila enorme para inspecionarem a minha bagagem de mão. Serah que é dessa vez que vão me pegar por um crime que nem sei se cometi?
Para depois de passado tudo isso e chegado o destino, eu abrir as malas e descobrir que esqueci algo geralmente muito importante.
Esses dias, quase de férias, foram aprovaitados com as liquidações em Paris e com as amigas. Depois de uma quinta-feira com mais de 700 mulheres num “encontro soh para mulheres” de uma empresa parceira da Sciences-Po, uma sexta com as amigas da igreja para uma “sleep over party” e um sabado recheado de compras com a melhor amiga eu me sinto mais do que no direito de fazer elocubrações psico-filo-antropologicas à respeito da estranha relação das mulheres com compras, especialmente com promoções. (Lire la suite…)