Eu moro na França e trabalho na Suiça, isso me encaixa numa categoria que os suiços chamam “carinhosamente” de frontaliers, ou seja, aqueles caras que atravessam a fronteira para roubar o emprego deles. Eu e mais um punhado de pessoas que moram na simpática cidadezinha do departamento da Haute-Savoie nos deslocamos todas as manhãs para a Suiça, mais precisamente para Genebra, para trabalhar.

Saio de casa todo dia às 8 da manhã e chego em 10 minutos em outro país. Eu cruzo a fronteira e de repente os croissants tem recheio de queijo, presunto, nutella e praliné, o creme de leite deixa de ser ácido para ser docinho e eu escuto “septante”, “octante” e “nonante” ao invés de “soixante-dix”, “quatre-vingts” e “quatre-vingt-dix”. Nos mercados do lado de lá da fronteira tem fondue, rösti e tudo traduzido em francês, italiano e alemão, do lado de cá da fronteira é bem mais fácil de encontrar baguetes fresquinhas e vinhos franceses baratos.

E eu, nesse vai e vem todo dia, fico com o melhor dos dois mundos.

Foram-se quase três meses, mas pouca coisa aconteceu. Além da visita da minha mãe os meus meses de verão em Paris se resumiram a ler, escrever, pensar, ler mais um pouco e escrever.
Não fui na Paris plage, alias, não fui para plage alguma. Não fiz  as “soldes” e me dei conta, muito mais tarde que seria a minha última “solde” em Paris.

Depois aconteceu tudo de uma vez: entreguei o mémoire, minha sogra veio me visitar, o namorado fez uma visita surpresa, me mudei, defendi meu mémoire, meu pai veio me visitar,  o outono chegou, me mudei de novo para fazer um estágio em Genebra.

E eu fiquei sem tempo para escrever no blog, para escrever emails, para ligar e todas essas coisas que uma boa amiga, filha e irmã deveria fazer.

Mas vamos lá, para evitar mais protestos parternos, eu recomeço a escrever para contar minhas novas aventuras trabalhando em Genebra e morando do lado francês da fronteira. Aproveito também para publicar uns posts antigos que eu não tinha tido de tempo de terminar e que podem não interessar mais a ninguém, mas aposto que minhas avós vão adorar.

Vinicius de Moraes

O sal das minhas lágrimas de amor
Criou o mar que existe entre nós dois
Para nos unir e separar
Pudesse eu te dizer
A dor que dói dentro de mim
Que mói meu coração nesta paixão
Que não tem fim
Ausência tão cruel
Saudade tão fatal
Saudades do Brasil em Portugal

Meu bem, sempre que ouvires um lamento
Crescer desolador na voz do vento
Sou eu em solidão pensando em ti
Chorando todo o tempo que perdi

2 anos de mestrado. 5 espirais pretas.92 paginas redigidas. 248 notas de rodapé. 510 paginas de impressão. Varias noites mal dormidas. Ver o seu mémoire tranformado numa nuvem de tags: não tem preço.

Wordle: Mémoire
Image by: www.wordle.net

Ps: Eu sei que estou devendo um update desde julho. Ele vira em breve.

Em tempos difíceis ou de incerteza é sempre bom lembrar que nós somos.

A mocinha francesa e a menina chinesa tinham acabado de voltar de Londres e tiveram o seguinte dialogo na minha frente voltando do aeroporto:

- Ah, a França é muito conhecida pela sua gastronomia.

- O que quer dizer gastronomia? – perguntou a chinesa intrigada.

-  A é uma palavra muito francesa, quer dizer comida boa, comida cara e chique, entende?

- Mais ou menos. Como o que por exemplo?

- Ah, a gente tem pratos que são tipicos da “gastronomie française” por exemplo pernas de rã e escargots.

- Hã?

- Isso mesmo, pernas de rã e esgargot…er…caracol sabe?

- Sério? – perguntou a chinesinha com cara de nojo

- Sério. Mas é gostoso. E você não tem um prato da gastronomia chinesa?

- Ah, tem sim! A gente come cobra.

E eu ouvindo a conversa fiquei pensando quando gastronomia virou sinonimo de comidas bizarras.

A França é um pais anti-capitalista. Eh isso que diz o namorado toda vez que vem aqui. Eles não se importam muito em ganhar dinheiro, e o trabalho é apenas uma desculpa para você poder tirar férias.

Você percebe isso quando o garçom decide que não quer te atender no restaurante porque ele soh tem mesa de dois e vocês estão em três. Quando você é expulso de um café logo na porta de entrada porque eles vão fechar em 15 minutos. Ou ainda quando a atendente da loja garante que você perceba que sua presença lah estah dando um trabalho enorme para ela, e ela prefereria que você nunca tivesse entrado, mesmo ela ganhando comissão.

Esses dias tive mais uma experiência desse anti-capitalismo francês, que eu por mais que tente, não consigo me adaptar. (Lire la suite…)

Pouco tempo depois que cheguei aqui eu comprei um filtro. Uma coisa interessante, é uma jarra, com um filtro no meio e você põe agua da torneira e voilà sai agua filtrada.

Não me lembro onde eu li esses tempos que esse método é melhor para o meio ambiente e economiza mais dinheiro do que ficar comprando garrafas de agua no mercado. Eu gosto dele porque é melhor para minha coluna e eu não preciso sair carregando garrafas de agua do mercado até a minha casa.

O unico pequeno inconveniente é ter que comprar os filtros, que devem ser trocados mensalmentes. Eles geralmente vem em pacotinhos de 3 e quando um dos filtros “vence”, você tem que fazer todo um procedimento de lavagem da garrafa e instalação do novo filtro.

Quando cheguei aqui de volta do Brasil em janeiro, encontrei uma promoção no mercado: 6 filtros pelo preço de 3. Apesar de ter ficado contente com a promoção eu meditei sobre o quanto ainda estava longe para chegar na metade do ano, e quanto ainda faltava para eu ir para casa.Ontem eu tirei o ultimo dos filtros do pacotinho de 6 do meu filtro, cheguei na metade do tempo que me resta na Europa e dentro de 6 meses eu vou estar indo para casa.

Depois de lavar toda a garrafa, secar eu começei o procedimento para instalar o primeiro dos filtros do novo pacote que eu comprei, desta vez sem promoção, com 3 filtros.

Quando esse pacote acabar, eu vou estar indo embora de Paris para outras terras mais frias, mas certamente vou levar meu filtrinho na bagagem.

Quem é que um dia imaginou que a vida podia ser medida em filtros?

papayaSe eu parar para pensar, é verdade que eu nunca tinha visto um papaya em Paris. Mas até ai, papaya não é minha fruta favorita e eu estava rodeada de moranguinhos, framboesas e cerejas.

Porém um dia a vontade chegou. Do nada me deu vontade de comer um café da manhã daqueles de novela, ou igual aqueles que rolam quando eu vou visitar a (ex) casa da melhor amiga ou ainda quando vem visita na minha casa brasileira: pão de queijo, café, suco de laranja feito na hora, pão fresquinho, geléia, manteiga, queijo mussarela, queijo prato, queijo branco, presunto, chocolate quente, rosca doce e é claro mamão papaya.
A vontade em si passou, mas ficou na minha cabeça o tal do mamão papaya. Eu pensei, ora, a proxima vez que eu for no mercado eu compro um papaya é saudavel, é bonitinho e é gostoso. Isso jah faz mais de 20 dias.

Sim, eu fui no mercado um punhado de vezes depois disso o problema é que não achava o dito cujo. Até o presente dia.

Encontrei uma pequena pilha de papayas vindos diretamente do Brasil, logo ao lado do maracuja da Tanzania e em cima da batata doce da Guatemala, na seção de frutas exoticas do mercado. Isso mesmo! Mamão papaya é fruta exotica!

Mas o choque mesmo foi ver que cada um custava a singela quantia de 8 reais.

Tah, eu comprei um para passar a vontade e chega né? Outro soh no Natal.

Quando cheguei no caixa a vendedora passa um tempão olhando para fruta, como se eu tivesse esquecido de pesar. Eu viro com a minha cara desconsolada e digo: Custa 3€, CADA UM. Ela fala: Ah, sim, isso eu sei. Soh nunca tinha visto essa fruta de perto antes. Como chama mesmo?

Eh duro vir de um pais tropical, viu!

Pleno dia dos namorados e foi o meu ultimo dia de aulas na Sciences Po.  Isso não significa que o trabalho acabou, muito longe disso, ainda restam 3 provas orais e um mémoire de 100 paginas para redigir. Mas a minha vida de aluna, por assim, dizer acabou. Chega de aulas, ao menos por um tempo.

Depois de um dia com um exposé matinal logo às 8 horas, uma conferência de dia todo e uma aula no final da tarde eu terminei às 19h15 minha ultima aula na Sciences Po.

As ultimas palavras que a professora de direitos humanos nos disse foram “Je me révolte, donc nous sommes”, uma citação de Camus. Inspirador não?

Mas para ser mais exata a ultima frase dela antes de eu sair da sala de aula foram – com uma caixa de biscoitos na mão: Pega mais um Priscila! Tenho a impressão que a lição que eu vou levar para toda vida vai ser essa: Sempre que tiver a oportunidade pegue mais um biscoito.

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