Gaillard é uma cidadezinha com 12000 habitantes na zona urbana e mais um punhado na zona rural. Suas plantações abastecem tanto a cidade em si, quanto Genebra.

Geralmente eu acordo todo dia quando apenas a boulangerie e a tinturaria abriram e volto quando tudo já fechou. Porém no sabado é meu dia de aproveitar a cidade.

Todo sábado de manhã tem um mercado na “praça do mercado” em Gaillard. Faça chuva, frio ou sol os vendedores estão na praça vendendo frutas e legumes diretamente das suas plantações, ou bugigangas em geral, direto das suas próprias casas. Alguns também trazem ovos, galinhas e queijos feitos na fazenda, mesmo porque a fazenda deve ficar uns 20 minutos de caminhada do mercado.

No mercado também tem uma “buvette”, quer dizer barraquinha, para comer fondue, uma gracinha.

E toda a vizinhaça passa por lá para fazer um social. Inclusive minha gerente do banco que eu encontrei por lá e aproveitou para me avisar que eu recebi um novo talões de cheque.

Eu moro na França e trabalho na Suiça, isso me encaixa numa categoria que os suiços chamam “carinhosamente” de frontaliers, ou seja, aqueles caras que atravessam a fronteira para roubar o emprego deles. Eu e mais um punhado de pessoas que moram na simpática cidadezinha do departamento da Haute-Savoie nos deslocamos todas as manhãs para a Suiça, mais precisamente para Genebra, para trabalhar.

Saio de casa todo dia às 8 da manhã e chego em 10 minutos em outro país. Eu cruzo a fronteira e de repente os croissants tem recheio de queijo, presunto, nutella e praliné, o creme de leite deixa de ser ácido para ser docinho e eu escuto “septante”, “octante” e “nonante” ao invés de “soixante-dix”, “quatre-vingts” e “quatre-vingt-dix”. Nos mercados do lado de lá da fronteira tem fondue, rösti e tudo traduzido em francês, italiano e alemão, do lado de cá da fronteira é bem mais fácil de encontrar baguetes fresquinhas e vinhos franceses baratos.

E eu, nesse vai e vem todo dia, fico com o melhor dos dois mundos.

Foram-se quase três meses, mas pouca coisa aconteceu. Além da visita da minha mãe os meus meses de verão em Paris se resumiram a ler, escrever, pensar, ler mais um pouco e escrever.
Não fui na Paris plage, alias, não fui para plage alguma. Não fiz  as “soldes” e me dei conta, muito mais tarde que seria a minha última “solde” em Paris.

Depois aconteceu tudo de uma vez: entreguei o mémoire, minha sogra veio me visitar, o namorado fez uma visita surpresa, me mudei, defendi meu mémoire, meu pai veio me visitar,  o outono chegou, me mudei de novo para fazer um estágio em Genebra.

E eu fiquei sem tempo para escrever no blog, para escrever emails, para ligar e todas essas coisas que uma boa amiga, filha e irmã deveria fazer.

Mas vamos lá, para evitar mais protestos parternos, eu recomeço a escrever para contar minhas novas aventuras trabalhando em Genebra e morando do lado francês da fronteira. Aproveito também para publicar uns posts antigos que eu não tinha tido de tempo de terminar e que podem não interessar mais a ninguém, mas aposto que minhas avós vão adorar.

Portugal 2009

Finalmente férias. E férias muito bem acompanhada. Fui passear 5 dias em Portugal com a sogra que estava de visita em Paris. Depois do sofrimento com entrega/defesa da dissertação, nosso destino: Lisboa!

De lá conhecemos também Sintra, Cascais, Estoril, Queluz e Evora.

Com as dicas do meu amigo luso-brasileiro mais bem informado aproveitamos muito  a viagem e os 5 dias foram dignos de nota.

Conhecer Portugal é muito mais interessante quando se é brasileiro, pelo menos foi essa minha impressão ao ver os outros turistas gringos por lá. Além de falar a língua, o que é uma mão na roda, apesar das inevitáveis anedotas (ou anedoctas?), ouvir a história de Portugal e um pouquinho da nossa, contada diretamente por eles é muito divertido.

E mesmo se você não é um grande fã de história vale a pena ir a Portugal pelos bolinhos de bacalhau, pelos pastéis de belém, pelas queijadas, pelos travesseiros, pelo fado, pela praia, para subir no comboio, descer na paragem, andar na via para peões e para fazer piada de português.

Em suma, recomendo.

Vinicius de Moraes

O sal das minhas lágrimas de amor
Criou o mar que existe entre nós dois
Para nos unir e separar
Pudesse eu te dizer
A dor que dói dentro de mim
Que mói meu coração nesta paixão
Que não tem fim
Ausência tão cruel
Saudade tão fatal
Saudades do Brasil em Portugal

Meu bem, sempre que ouvires um lamento
Crescer desolador na voz do vento
Sou eu em solidão pensando em ti
Chorando todo o tempo que perdi

2 anos de mestrado. 5 espirais pretas.92 paginas redigidas. 248 notas de rodapé. 510 paginas de impressão. Varias noites mal dormidas. Ver o seu mémoire tranformado numa nuvem de tags: não tem preço.

Wordle: Mémoire
Image by: www.wordle.net

Ps: Eu sei que estou devendo um update desde julho. Ele vira em breve.

Em tempos difíceis ou de incerteza é sempre bom lembrar que nós somos.

A mocinha francesa e a menina chinesa tinham acabado de voltar de Londres e tiveram o seguinte dialogo na minha frente voltando do aeroporto:

- Ah, a França é muito conhecida pela sua gastronomia.

- O que quer dizer gastronomia? – perguntou a chinesa intrigada.

-  A é uma palavra muito francesa, quer dizer comida boa, comida cara e chique, entende?

- Mais ou menos. Como o que por exemplo?

- Ah, a gente tem pratos que são tipicos da “gastronomie française” por exemplo pernas de rã e escargots.

- Hã?

- Isso mesmo, pernas de rã e esgargot…er…caracol sabe?

- Sério? – perguntou a chinesinha com cara de nojo

- Sério. Mas é gostoso. E você não tem um prato da gastronomia chinesa?

- Ah, tem sim! A gente come cobra.

E eu ouvindo a conversa fiquei pensando quando gastronomia virou sinonimo de comidas bizarras.

A França é um pais anti-capitalista. Eh isso que diz o namorado toda vez que vem aqui. Eles não se importam muito em ganhar dinheiro, e o trabalho é apenas uma desculpa para você poder tirar férias.

Você percebe isso quando o garçom decide que não quer te atender no restaurante porque ele soh tem mesa de dois e vocês estão em três. Quando você é expulso de um café logo na porta de entrada porque eles vão fechar em 15 minutos. Ou ainda quando a atendente da loja garante que você perceba que sua presença lah estah dando um trabalho enorme para ela, e ela prefereria que você nunca tivesse entrado, mesmo ela ganhando comissão.

Esses dias tive mais uma experiência desse anti-capitalismo francês, que eu por mais que tente, não consigo me adaptar. (Lire la suite…)

Pouco tempo depois que cheguei aqui eu comprei um filtro. Uma coisa interessante, é uma jarra, com um filtro no meio e você põe agua da torneira e voilà sai agua filtrada.

Não me lembro onde eu li esses tempos que esse método é melhor para o meio ambiente e economiza mais dinheiro do que ficar comprando garrafas de agua no mercado. Eu gosto dele porque é melhor para minha coluna e eu não preciso sair carregando garrafas de agua do mercado até a minha casa.

O unico pequeno inconveniente é ter que comprar os filtros, que devem ser trocados mensalmentes. Eles geralmente vem em pacotinhos de 3 e quando um dos filtros “vence”, você tem que fazer todo um procedimento de lavagem da garrafa e instalação do novo filtro.

Quando cheguei aqui de volta do Brasil em janeiro, encontrei uma promoção no mercado: 6 filtros pelo preço de 3. Apesar de ter ficado contente com a promoção eu meditei sobre o quanto ainda estava longe para chegar na metade do ano, e quanto ainda faltava para eu ir para casa.Ontem eu tirei o ultimo dos filtros do pacotinho de 6 do meu filtro, cheguei na metade do tempo que me resta na Europa e dentro de 6 meses eu vou estar indo para casa.

Depois de lavar toda a garrafa, secar eu começei o procedimento para instalar o primeiro dos filtros do novo pacote que eu comprei, desta vez sem promoção, com 3 filtros.

Quando esse pacote acabar, eu vou estar indo embora de Paris para outras terras mais frias, mas certamente vou levar meu filtrinho na bagagem.

Quem é que um dia imaginou que a vida podia ser medida em filtros?

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